A cidade que ninguém ficava de fora

 Júlia tinha doze anos e estudava no sexto ano. No recreio, ficava quase sempre sozinha sentada perto da grade, mexendo no estojo ou fingindo ler um livro. Os colegas passavam em grupo, rindo, trocando figurinhas, mas raramente a chamavam.

Não havia empurrões, não havia xingamentos em voz alta. Era pior: havia silêncio. Quando ela se aproximava, as conversas se interrompiam; quando tentava sentar à mesa da cantina, os outros se levantavam aos poucos, como se fosse coincidência.

Na sala de aula, os bilhetes passavam de mão em mão, mas nunca chegavam até ela. Quando a professora fazia trabalho em grupo, Júlia era a última a ser escolhida, não porque ninguém a odiasse, mas porque todos fingiam não vê-la.

O que mais doía não era o que diziam, mas o que não diziam. O vazio. A sensação de ser transparente.

Uma tarde, Júlia desenhou no caderno um coração pequeno, todo feito de quadradinhos. Embaixo escreveu: "Se ninguém me enxerga, será que eu existo?"

Mas havia alguém que a enxergava. Lucas, que também gostava de ficar quieto no recreio, reparava nos desenhos que Júlia fazia, cheios de cores e detalhes. Um dia, ele se aproximou e disse: "Posso sentar aqui?"

Foi só uma frase simples, mas para Júlia soou como música depois de tanto silêncio.

Com o tempo, Júlia e Lucas começaram a transformar os recreios em algo especial. Enquanto os outros conversavam em grupos, eles inventavam histórias nos cadernos, criavam personagens, mundos e até "trilhas sonoras" feitas de listas de músicas que gravavam em fitas.

Um dia, a professora pediu que a turma apresentasse um trabalho em dupla. Para surpresa de todos, Júlia e Lucas se ofereceram juntos. Eles montaram uma maquete colorida e contaram a história de uma cidade inventada, onde ninguém ficava de fora, cada casa tinha espaço para mais alguém.

Na hora da apresentação, a sala ficou em silêncio mas não aquele silêncio pesado de exclusão, foi um silêncio de atenção. Quando terminaram, a professora sorriu e disse; "Vocês mostraram o valor da criatividade e da amizade. Muito bonito."

Alguns colegas, que até então nunca tinham dado importância a Júlia, começaram a se aproximar curiosos. Não se tornaram melhores amigos de imediato, mas passaram a tratá-la com mais respeito.

O mais importante, porém, foi que Júlia descobriu algo dentro dela: o silêncio não a definia mais. Ela tinha voz, tinha talento, tinha alguém que acreditava nela e melhor, estava começando a acreditar cada dia mais em si mesma.

E, sempre que sentia a sombra da solidão chegando, lembrava-se daquela primeira frase de Lucas: "Posso sentar aqui?"

Foi o começo de tudo.


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