Flores que brotam tarde também são flores...

 

Raquel acorda todos os dias antes do sol. O quarto ainda estava escuro, foi até a cozinha sem ligar a luz para acostumar a vista.  Fez café, forte do jeito que precisava para vencer o dia,  já pensando na marmita  com o lanche que ainda não montara pelo avanço da hora na noite anterior, seu turno é de seis horas mas tem um descanso de quinze minutos onde come alguma coisa e lê algumas páginas do gibi que leva na bolsa, na infância era proibida de ler gibis, mas agora? Quem poderia impedi-la?  Levantou o olhar para o relógio na parede e precisava se apressar.

Já no ponto, quinze minutos depois, entre outras mulheres com a mesma expressão cansada, pensava no que a esperava, os cinco andares de banheiro, os corredores empoeirados, as janelas altas demais... era um trabalho pesado, mas era o que tinha e foi tão difícil conseguir essa vaga, era na verdade muito grata por isso e então, fazia tudo com muito cuidado e atenção. Passou a juventude na expectativa de um Jesus Cristo que ainda não voltara, como se fosse uma trava para tudo que sonhava em fazer, estudar, viajar, ter um trabalho onde pudesse usar mais a cabeça que a força, fora criada com essa ideia de que não precisava estudar muito, porque o mundo iria acabar mesmo, além da falta de dinheiro dos seus pais e de acesso ao estudo por viver numa cidade pequena, não teve muitas oportunidades...

Depois do turno voltava para casa, pegava os netos na escola e os levava para sua casa, Francisco, quatro anos e Helena, seis, passava as tardes com eles, sua filha chegava por volta das 18h para apanhá-los. Sua filha morava a duas casas da sua, conseguira dar à sua filha, o que tanto desejava para si, estudo... é professora na escola que os filhos estudam.

Quando a casa finalmente silenciava, Raquel colocava seu uniforme, uma calça jeans gasta, pegava a mochila e ia para a escola. Era a parte mais difícil do dia e também a mais esperada.

Entrava na sala com a cabeça baixa. No começo, sentia vergonha. Os outros alunos eram mais novos, pareciam entender tudo rápido. Ela demorava mais, não podia desviar a atenção do professor para não perder nada. Seu sonho era terminar o Ensino Médio e quem sabe, fazer uma faculdade.

A professora de matemática, era bastante atenciosa e sempre conversava com Raquel, quando esta demonstrava uma certa ansiedade em não compreender a fórmula e a tratava sempre pelo nome, dizia:

- Calma Raquel, um passo de cada vez, começa de novo, faça novamente, tente compreender a lógica, tudo ao seu tempo.

As palavras da professora soaram como um alívio, gostava disso, ter tempo, na vida nunca teve. Tudo foi no atropelo, num dos momentos de rebeldia com a família e a religião, acabou engravidando de um rapaz que não quis assumir a criança, foi expulsa de casa pelo pai, ficou vivendo na casa dos avós que tinham a mesma religião, porém eram mais acolhedores que seus pais, na verdade, seu pai, sua mãe era extremamente submissa e preferiu se silenciar, apesar de ver o sofrimento nos olhos da esposa, foi proibida de ir na casa dos pais, mas ia escondida ver Raquel.

Sua filha nasceu e com a ajuda dos avós, conseguiu arrumar um trabalho de faxineira, abandonou a escola assim que soube da gravidez e nunca mais teve a oportunidade de voltar até agora. Ali na escola, com o caderno aberto e as novas páginas que a vida agora estavam lhe dando, se permitiu sonhar.

Os anos se passaram, seus avós morreram e ela ficou morando na casa com a filha que estudou em escola pública, mas era muito aplicada, passou numa universidade federal, formou-se em Pedagogia, uma professora. O dia da formatura foi o dia mais feliz da vida de Raquel, nem no casamento da menina, estava tão feliz e radiante, era como uma conquista pessoal, proporcionar à filha, o que não teve.

Numa aula de português, a professora passou uma atividade: escrever uma carta. Não precisava ser para ninguém em especial. Só escrever. Raquel pensou na filha, mas também pensou nela mesma. E escreveu:

Olá eu!

Estou tentando reencontrar meu caminho. Caminho este, que com certeza desviei para atalhos que me levaram a outras histórias. Hoje, tento retomar, vou te dizer que não é fácil, talvez porque escolhi o atalho mais difícil, mas estou aqui, inteira e convicta de que posso. Hoje eu posso.”

Dobrou o papel e guardou no caderno. Não mostrou para ninguém, afinal era uma coisa dela. Naquele dia, ao voltar para casa no ônibus lotado, sentiu algo diferente. Como se, enfim, estivesse andando em direção a alguma coisa que era só dela.

Não era um final feliz porque não tinha final ainda, mas pela primeira vez, Raquel sentia que a história estava sendo escrita por ela mesma. Sem atropelos, apenas no seu tempo. 

Desceu do ônibus e caía uma chuvinha fina, sentiu-se viva ao sentir o geladinho da água escorrendo sobre seu rosto e sentiu também  que um futuro promissor a aguarda.

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