A aposta

A adolescência não estava sendo fácil para Marina, tinha saudades dos tempos de criança, de quando brincava na rua, de pega-pega, esconde-esconde, taco... sempre com as meninas da vizinhança, naquela época só tinha meninas na rua, era um tempo bom.. mas virar mocinha não foi simples, vieram as inseguranças por não ser assim tão bonita.

Seu quarto era um refúgio, ali podia ler os livros 'proibidos', dançar sem que ninguém visse, às vezes a mãe ouvia o som um pouco mais alto e gritava do lado de fora que aquilo não era música de cristão... ela abaixava o volume e continuava, imaginando-se uma dançarina linda e  famosa.

Aos quinze, foi para uma escola técnica, no período noturno, não tinha amigos e não era de muita conversa, as colegas do ginásio tomaram outros rumos, então estava só.

Conheceu Angela, ficaram muito próximas, a considerava como melhor amiga, era uma garota bonita, muito articulada que fazia muito sucesso com os garotos e achava Marina muito inteligente, mas sempre dizia que não a achava bonita.

Chegou o último ano, Marina continuava na concha, falava pouco, quando participava de uma roda, estava sempre ao lado da amiga, nunca tinha namorado, nunca tinha ficado com um garoto, mas em seus sonhos sim, era tão linda e simpática quanto a amiga.

Tinha uma autoestima muito baixa e isso só piorava tudo, foi quando começaram os olhares, um garoto bem sociável por assim dizer, conhecia todo mundo, falava com todo mundo, começou a se aproximar.

Conversas curtas, quase banais, olhares cruzados, um elogio solto, um sorriso inesperado. Para ela, era como se o mundo tivesse finalmente aberto uma janela, não que o tivesse notado antes, mas era alguém que a tinha notado, então porque não?

Quando veio o convite, o coração disparou. Naquela noite, demorou diante do espelho. Escolheu a roupa com cuidado, imaginou o toque, ensaiou a entrega. Acreditou. Acreditou de corpo inteiro.

No bar, encontrou não apenas ele, mas também um amigo dele. E, estranhamente, sua melhor amiga. Sentaram-se todos juntos. Silenciou a dúvida. Quis confiar. Então, ele a beijou. Mas não era um beijo secreto. Era um beijo oferecido à plateia, um espetáculo barato diante de olhos que riam.

Nos dias seguintes, o silêncio. Ela tentou ligar para ele, do orelhão perto de casa, ele se fez de desentendido, frio e distante. Nos corredores, o vazio de um rosto que a negava. Nas rodas, o eco das risadas.

O que havia acontecido? Não sabia dizer, não conseguia entender...

O beijo, que poderia ter sido lembrança doce, tornou-se cicatriz. E a confiança, que já era pequena, morreu ali.

Alguns anos depois, em uma visita breve à cidade natal, caminhando pelas ruas do centro, o avistou, fez que não viu, mas não houve jeito, ele a viu, também tentou se esconder, mas por fim, veio ao seu encontro.

Ao chegar perto, olhou para o chão, com voz trêmula pediu perdão. Disse que o que fizera o atormentava desde então e quanto mais o tempo passava mais o remorso aumentava. Disse que foi envolvido pela amiga, ela tinha um plano, uma aposta valendo uma semana de lanche na cantina, ele aceitou afinal era só um beijo em alguém que nunca tinha beijado. 

Todos na sala sabiam do segredo que  havia compartilhado com aquela que achava ser amiga.  Disse estar arrependido, ter procurado por ela, mas soube da mudança de  cidade, achou que nunca conseguiria pedir perdão. Confessou estar doente, já com o tempo contado e seria muito triste morrer sem pedir perdão, por isso não exitou quando a viu, disse ter sido abençoado com esse encontro inesperado. 

Ela o ouviu em silêncio. 

Perdoou. Não porque a ferida tivesse fechado, mas porque a compaixão falou mais alto. Seguiu seu caminho com pena e ao mesmo tempo, em pedaços.

Quase trinta anos se passaram desde aquele beijo.  A vida foi dura, pois não se permitiu confiar em ninguém, mas aprendeu a confiar em si mesma, chegou aonde quis. Mas ainda assim, dentro dela, existe a menina de dezessete anos: ferida, desconfiada e sobrevivente.

Ela aprendeu a caminhar com as cicatrizes, mas também aprendeu a sentir pequenas luzes: a força de sua própria voz, o silêncio que se transforma em força e a determinação de realizar o que quisesse.

A lembrança antiga  às vezes acorda. Mas, no fundo há sementes de esperança que resistem, discretas, silenciosas, mas firmes. E isso foi o suficiente para continuar.


Comentários

Postagens mais visitadas