Um pão na chapa e uma média...


Depois de alguns dias ainda em completo devaneio, levantei-me com muita vontade de viver, abri as cortinas e o sol já dava indícios de apontar, vinte e um de junho início do inverno, não que seja frio no Rio, mas é uma sensação boa, de aconchego, ia comprar pão na padaria charmosa que tem aqui perto, lembrei de quando me mudei para cá, era apenas uma portinha, mas que oferecia o melhor pão de queijo que já havia comido, foi totalmente transformada e hoje lembra um bistrô francês. 

Desci e dei um olá para o sr. Gonçalves, porteiro de longa data,  atravessei a rua, ainda sem muito movimento, a padaria ainda vazia, havia apenas um rapaz comendo o seu pão na chapa com ovos mexidos e uma média, nome dado aqui no Rio ao café com leite em igual proporção.  

Resolvi tomar o meu café ali mesmo, pena não ter trazido o livro que estava lendo, quando ia a lugares públicos quase sempre ia acompanhada por um livro, seu melhor amigo de sempre.

Escolhi uma mesa onde poderia observar a todos os movimentos, inclusive a rua. Fez o  pedido, uma média com um bauru (sanduiche de pão, ovo, queijo, presunto e salada de alface com tomate), geralmente pedia um pão na chapa, mas hoje estava faminta.

Passou-se alguns minutos, entraram quatro moças ainda devidamente vestidas para a noite, maquiagem borrada, num primeiro momento vem sempre o julgamento, porque quatro mulheres viram a noite numa  balada e terminam numa padaria para o café da manhã, no outro dia.. e aí se lembrou de que todo mundo é livre para fazer o que quiser, e que isso é libertador... elas falavam alto, talvez ainda por causa do lugar onde estiveram, ser barulhento... fizeram seu pedido. 

Em seguida, entrou uma moça vestida de forma bem casual, com um jeans e um casaco, os cabelos ao vento,  procurou uma mesa perto da janela, ainda em pé, alguém acenou pelo vidro.. outra moça, com mochila, cabelos encaracolados, foi recebida com um sorriso e um beijo lindo e apaixonado, sentaram-se, ainda de mãos dadas, olharam o cardápio juntas. Fiquei surpresa e  ao mesmo tempo, encantada com aquele beijo, o amor de uma forma tão livre também. 

Meu pedido chega, sanduíche lindamente feito com muito capricho, café fumegando.

 Em seguida um homem de meia idade entra no salão e vê as mocinhas conversando alegremente, com suas costas e pernas de fora, ele senta na mesa de trás, olha para elas com um ar de riso, mais uma vez julguei, com tantas mesas não havia necessidade de se sentar tão perto delas.

Enfim, tomei meu café observando pessoas livres, libertas, com suas dificuldades e anseios.. o rapaz termina seu café e alguns minutos depois, atravessa a rua, com a mochila nas costas e boné na cabeça, certamente começaria um longo dia de trabalho, devidamente alimentado, talvez imaginando o que aquele dia lhe traria de bom, ou sei lá, pensando na pelada depois do trabalho.

Cada vida ali, um mundo diferente, com sonhos, dificuldades e eu somente a observar, sem me dar conta ainda, do quanto eu também já era livre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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